Como você percebe o seu sucesso?
O caminho para fora do vale surge quando você decide ver as coisas de outra forma
Spencer Johnson em Picos e Vales
A palavra “sucesso” sempre nos remete a imagens de alguém muito rico, poderoso, famoso e admirado por todos. Essa concepção que temos sobre o sucesso vem sendo repetida em todos os cantos, tornando-se uma verdade pétrea em nosso subconsciente.
Nesta semana resolvi falar sobre esta nossa falsa interpretação – pelo menos em parte - que damos ao sucesso.
“Subir na vida”
“Para você ser alguém na vida, meu jovem, você precisa disso e daquilo, mais isso e, enfim, mais aquilo“. Essa ideia vem acompanhada pela necessidade de competir acirradamente na esfera socioeconômica e chegar sempre em primeiro lugar. Sempre ser o melhor em todas as nossas atividades. Ambições materialistas, persistência, sem tempo para nada nem ninguém além de lutar pelo seu lugar ao sol. Deve-se ter bens, ser influente, dispor de cada vez mais poder e conhecer muitas pessoas do mesmo nível social. Poder de realizar desejos, usufruir das paixões, escalar posições, enfim, ser uma pessoa ”bem-sucedida”. Como se diz por aí, deve-se “subir na vida”. Sob este ponto de vista concluo que, a menos que tudo isso aconteça, o sujeito não é alguém. E esta ideia de sucesso nos vem sendo empurrada há tanto tempo que passamos realmente a acreditar que o sucesso se resume a isso e nada mais.
Em que momento eu passo da condição de ninguém para a de alguém? Que subida da vida é essa? Ela me conduzirá aonde? Ao sucesso? Provavelmente sim, tomando como base o seu entendimento mais comum. É o que se vende e se espera pela sociedade. Mas que sucesso é esse? E esse caminho me faz feliz? Passei a me fazer essas perguntas e isto me levou a mudar a forma de entender o sucesso.
As conquistas efêmeras
Há tempos venho fazendo uma reflexão sobre o que o chamado “sucesso” passou a representar para mim. Já passei pela fase das conquistas externas e da ilusão de que elas me trariam algo a mais do que o conforto e estabilidade material. Após ingressar no mercado de trabalho, sim, senti-me realizado em partes. Mas um vazio continuava lá. Algo estava faltando. Eu também acreditava naquela ideia ser bem-sucedido social e profissionalmente, mas não sabia que ela me conduziria também ao fracasso. Um fracasso íntimo. “Mas que diabos, o que mais que eu quero?“ Todas as conquistas na superfície externa traziam uma satisfação efêmera. Então, apesar de me considerar bem-sucedido para os olhares alheios, permanecia com aquele sentimento de vazio. E esse era o fracasso, subproduto das conquistas unicamente do mundo externo. Foi aí que comecei o processo de percepção sobre mim mesmo e daquilo que o sucesso representava para mim.
Não quero fazer nenhuma apologia ao completo desapego das nossas vitórias da superfície, até porque seria muito hipócrita de minha parte. Eu acredito que o conforto material nos proporciona meios para viver adequadamente e acho que devemos buscá-lo. Devemos, sim, usufruir dele de acordo com as nossas verdadeiras necessidades. Sem uma determinada infra-estrutura cultural, material e intelectual, ficaríamos socialmente atados, sem poder existir como membros influentes na construção social, algo que também nos realiza. Aqui está um exemplo claro: se eu não tivesse um preparo intelectual, conquistas materiais, acesso às informações, ao conhecimento, nem de longe teria condições para refletir sobre a existência – pelo menos a minha -, muito menos registrar essa reflexão aqui no meu computador para o mundo inteiro. Mas falta algo, não falta?
Percebi que, embora a maioria das pessoas viva nesse frenesi atrás daquilo que se acredita ser o sucesso, elas não percebem que esta busca inconsciente pelos objetivos meramente superficiais está muito distante da conquista de uma existência plena. Não percebem que esta é uma pequena parte de tudo que se precisa e ainda assim é buscada de maneira errada. A forma correta de se atingir tais objetivos é matéria para outra discussão.
As conquistas externas são apenas os 10% do iceberg que ficam acima do mar. Conquistar, consumir e acumular (considerando apenas o necessário para uma vida digna) é igual a 10% das nossas necessidades para o sentimento de plenitude. O restante, os outros 90%, a camada menos visível da existência, permanece esquecida por todos nós.
Essa maneira desfocada de se buscar o sucesso nos mantém numa tensão constante, tornando nossa vida uma maratona bastante desconfortável. Corre-se para lá e para cá, a mente não para de inventar o próximo passo para conquistar mais, consumir mais e acumular mais. Como que uma necessidade constante de se preencher o vazio que continua sempre lá, angustiante e inexplicável. Muitas vezes crescente.
Essa velocidade crônica nos causa um estresse contínuo que nos leva ao cansaço físico e mental. E o prejuízo emocional é o resultado de tudo isso. Infelicidade, tristeza e frustração. O pior é que, quando atingimos um dos objetivos prestabelecidos pelo tal “sucesso capenga”, eles já não têm o mesmo valor do que quando os idealizamos. Ou, se têm, este valor cai exponencialmente com o tempo. E ressurge a necessidade de “subir mais ainda na vida”, uma vez que o patamar conquistado já não é mais suficiente. O vazio o devorou. Este ciclo vicioso permanece ad eternum como se um dia, através disso, finalmente conquistaríamos a paz interior. Você ainda não percebeu que este não é o caminho certo?
O sucesso definitivo: conquistando uma existência plena
A tomada de consciência desta angústia, deste vazio, desta insatisfação constante, permite-nos identificar que o verdadeiro sucesso não é apenas aquilo que estávamos buscando inicialmente. O grande empecilho à felicidade perene surge por se acreditar que o sucesso se resume na conquista daqueles 10% do iceberg. A forma de nossa luta permanente pelos 10% não nos permite um espaço para a conquista de nossa própria vida, dos outros 90% do iceberg submersos em nosso oceano inconsciente. Vivendo apenas nesta superfície e buscando incessantemente o acúmulo de coisas, sejam materiais, títulos, posições sociais, poder de influência, são aspectos que nos deixam mais e mais inconscientes de nós mesmos se usarmos todas as nossas energias para isso. É como que se apenas os 10% existissem. A correria nos deixa flutuando em meio à loucura de se conquistar aquilo que nos permite ser e agir na sociedade, enquanto que o interno, o interior, a alma, o divino, aquilo que nos permite existir plenamente, são perdidos.
Abrir os olhos todas as manhãs não significa que estejamos acordados. Para que possamos preencher esse vazio em nossas almas é necessário despertar de fato. Despertar deste sono profundo, perceber os outros 90% escondidos dentro de nós. Passemos a refletir quais são as outras conquistas, além de todas estas superficiais, que precisamos realizar para nos tornarmos completos e preenchidos pela existência. Precisamos mudar nossa percepção sobre o sucesso. Não podemos nos deixar levar pela imagem que nos é vendida diariamente. Acordemos para a conquista de nós mesmos.
Como despertar?
Não há segredo, apesar de não ser fácil. Primeiramente é preciso perceber a sua rotina. Quanto tempo você passa na luta pelas conquistas materiais, externas? Este tempo deve incluir o tempo que você fica pensando nessas conquistas, ocupando sua mente com elas. Quanto maior for a sua ocupação metal, física e energética nesta batalha, na circunferência de sua existência, menor será o seu grau de percepção interior. Para aumentar a sua percepção interior, reduza sistematicamente o tempo pensando e agindo para atingir seus objetivos superficiais, e aumente proporcionalmente aquele tempo destinado à sua percepção interior. À percepção dos aspectos que o deixam completo naquele exato momento. Um sentimento de sincronia com o Universo.
Reflita sobre o que é mais importante para você. Fazer um esporte, escutar música, tocar um instrumento, ficar com a família, assistir a um filme ou ler um bom livro, são atividades que nos ajudam a estimular nossa reflexão interior. Quem sabe sentar e não fazer absolutamente nada – talvez algo muito difícil para quem está acostumado a parar apenas quando se atira na cama para dormir. Com o tempo você vai perceber que se dedicar mais à você do que às suas conquistas meramente externas vão lhe proporcionar uma maior qualidade de vida, e até mesmo melhor qualidade naquilo que você obterá em suas próprias conquistas materialistas. Elas terão mais valor e você se contentará com menos. Você passará a perceber o que é essencial para você. O acúmulo será menor, o desperdício será menor e a energia de sua vida será de uma outra qualidade, pois será focada no que realmente importa. E os 90% faltandes de hoje, serão preenchidos pelo verdadeiro sucesso, a felicidade perene. O equilíbrio entre o pensar, agir e existir.
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